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Debate Psicodrama

     
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psicodrama na rua
Remetente: Fernando  Melgarejo  <fernando@hipernet.ufsc.br>
Data  de  Envio: 2001-06-10  19:16:40.000
Psicodrama na rua

Se não se recria a noção de que a cidade pertence aos seus habitantes, e
não aos donos do poder, que sentido faz governar?

ANTONIO CARLOS CESARINO

	O evento do último dia 21 de março, um megapsicodrama na cidade de São
Paulo, gerou diversos comentários. Entre os próprios psicodramatistas, que
trabalharam de graça, a reação foi de euforia, por estarmos colocando em
prática a vocação principal do psicodrama: a social.

	Sobretudo da população atingida, ouvimos numerosos, emocionados e
gratificantes comentários, quase todos de pessoas agradavelmente
surpreendidas. Houve também observações equivocadas. Creio que, em sua
maioria, provenientes de opositores do atual poder municipal. Mas a prova
do acerto é que praticamente todos os participantes pediram para que a
atividade continue.

	O psicodrama é uma maneira de trabalhar com grupos de forma terapêutica,
pedagógica e investigativa. Foi desenvolvido no início do século passado,
em Viena, pouco depois do advento da psicanálise. Baseia-se em três pontos:
teatro, psicologia e sociologia. No Brasil, o psicodrama surgiu com força
durante o período mais terrível do regime militar -o fim dos anos 60 e o
início dos 70. Era a época em que se desenvolvia a contracultura, em que se
questionavam posturas até então inquestionáveis.

	Como aqui o fazer diretamente político estava proibido, grande parte do
movimento contestatório se manifestou mais nitidamente no grande
desenvolvimento da produção cultural, em que havia uma evidente tendência a
um pensamento de esquerda. A contrapartida da expansão dessas idéias entre
a juventude (principalmente universitária de classe média) era o bloqueio
progressivo delas para as classes populares.

	Em dezembro de 1968 veio o Ato Institucional nº 5. Aos poucos o chamado
milagre econômico foi anestesiando parcelas da sociedade ao acenar com o
sonho da ascensão social.

	Ao mesmo tempo, a defesa de valores antigos (questionados em sua concepção
tradicional), como família e sexualidade, foi encampada pela ditadura. Isso
levou parcelas conservadoras da população a apoiar direta ou indiretamente
os desmandos do poder militar.

	As grandes modificações na vida econômica e política que fizeram o caminho
para a globalização e o que ela tem de destrutiva e predatória são a
continuação dessa história. Essa volta ao individualismo no seu pior
sentido, paralela a um estímulo crescente ao consumismo, é o corolário da
atual cultura globalizante norte-americana.

	Quanto mais essa face do capitalismo se desenvolve e se arraiga, mais se
implanta na mente das pessoas esse individualismo/egoísmo, determinando que
a vida e o destino de cada um são obra dele mesmo. A consequência desse
pensamento é que não é necessário ser solidário, a comunidade é uma ficção.
A ética, nesse caso, se resume ao interesse pessoal. Não se cogita a
cidadania, logo não se necessita do Estado. O psicodrama surge propondo o
coletivo onde se impunha o isolamento, soltando o grito onde o medo exigia
silêncio e paralisia. Ele aceita a sua vocação política, embora tenha um
grande espaço terapêutico.

	É exatamente aí que se insere o evento psicodramático realizado outro dia.
A intenção da prefeita e dos cerca de 500 psicodramatistas que se
espalharam pela cidade era recriar uma possibilidade de presença, de
auto-estima, de sensação de pertencer a um coletivo e de discutir e assumir
a própria cidadania.

	No psicodrama, a platéia e os artistas se confundem; o texto surge na hora
e o drama é o drama do grupo presente. Isso é a concretização, simbólica e
com a força emocional da dramatização, de que o drama de cada um depende de
um pensar e atuar coletivo. Quando esse instrumento trata de abordar temas
institucionais, cujo interesse, no momento do trabalho, transcende o drama
individual e se dirige ao coletivo, chama-se sociodrama. Foi isso o que
aconteceu em São Paulo: um amplo sociodrama público, contribuindo para
demarcar a diferença de postura entre os atuais e os últimos ocupantes da
prefeitura.

	As sessões tiveram momentos comoventes: um morador de rua declarou ser a
primeira vez que alguém falava com ele e uma pessoa do grupo dizia que
passava por ele todos os dias e não tinha se dado conta de que ele era um
ser humano. Houve situações de reclamações habituais em que as pessoas
perceberam que simplesmente reclamar não leva a nada, que é necessário
atuar. Para muitos, houve uma descoberta de que o espaço público não é só
um espaço de passagem. Ele nos pertence, pode ser um espaço de encontro e
convivência.

	Se isso é "perfumaria", como disseram alguns, se não se recria a noção de
que a cidade pertence aos seus habitantes, e não aos donos do poder, que
sentido faz governar? Talvez para esses críticos o governar seja um mero
exercício pessoal de vaidade e de poder. Ou uma mera construção de ruas e
pontes. É necessário tapar buracos, cuidar da saúde e das escolas, mas se
patenteia com clareza que o que se fizer é para ser feito para e com as
pessoas da cidade. Existe uma forma mais rica e humana de pensar a
política. O poder só tem sentido se sua função considera a utilidade geral.

	O que se deseja é chegar a um ponto em que andar pelas ruas seja não
apenas uma experiência mais segura, mas também um momento para estar com
uma porção de pessoas com as quais se pode dialogar, com as quais se podem
pensar soluções para os problemas, com as quais se pode, enfim, viver melhor.

Folha de São Paulo
7/5/2001




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