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[Ant-Br] Feminismo/"cultura do bumbum"
Remetente: cristiana  tramonte  <tramonte@ced.ufsc.br>
Data  de  Envio: 1999-11-23  20:57:36.000
>Posted-Date: Mon, 22 Nov 1999 11:22:07 -0300
>Date: Mon, 22 Nov 1999 10:40:33 -0200
>X-Sender: ltleiro@svn.com.br (Unverified)
>To: ant-br@listhost.uchicago.edu
>From: =?iso-8859-1?Q?Lúcia?= Tavares Leiro <ltleiro@svn.com.br>
>X-MIME-Autoconverted: from quoted-printable to 8bit by midway.uchicago.edu
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>Subject: [Ant-Br] Feminismo/"cultura do bumbum"
>Sender: ant-br-admin@listhost.uchicago.edu
>Errors-To: ant-br-admin@listhost.uchicago.edu
>X-Mailman-Version: 1.0rc2
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>List-Id: The E-Forum of Anthropology of/in Brazil
<ant-br.listhost.uchicago.edu>
>X-BeenThere: ant-br@listhost.uchicago.edu
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>
>                                  Jornal A TARDE,  Salvador, 14 de novembro
>de 1999.
>
>
>                Feminismo perde ponto com “cultura do bumbum”
>
>  Até o poeta Carlos Drummond de Andrade rendeu-se à preferência nacional,
>homenageando o bumbum com seu talento em vários poemas, dentre eles
>“Bundamel bundalis bundacor bundamor”, e “Quando desejos outros é que
>falam”. Na primeira poesia, Drummond escreve que são duas luas gêmeas/em
>rotundo meneio. Anda por si/na cadência mimosa, no milagre/de ser duas em
>uma, plenamente. O que o poeta de Itabira diria destes versos?: “Esta menina
>tá de brincadeira/vai acabar alguém passando a mão/Rebola, bola, o rebolado
>da Raimunda/Rebolando tá fazendo todo mundo passar mal/É o monumento da
>redonda arquitetura/logo embaixo da cintura...” ou “...bota a mão no joelho
>e dá uma abaixadinha/vai mexendo gostoso, balançando a bundinha”.
>
>José Bomfim
> 
>Os sucessos da Gang do Samba e do É o Tchan representam o modo pagodeiro de
>idolatrar essa anatomia erótica que acabou se transformando no degrau da
>fama de artistas e em alvo para críticas cada vez mais ácidas. Nas ruas, o
>cidadão comum acha que a explicação para o fascínio não é difícil:
>“Brasileiro sempre gostou de bunda, assim como norte-americano idolatra
>peitos”. Os intelectuais não acham tão simples assim. Para a sexóloga Gilda
>Fucs, voltamos ao estágio da “mulher objeto”, depois que Carla Perez
>ressuscitou o sucesso da bunda na música. O médico Enádio Morais Filho
>aponta uma série de problemas físicos e clínicos que podem acontecer em
>conseqüência do modismo. Severino Francisco, editor da revista “Radcal”,
>feita por adolescentes de Brasília, diz que enquanto a bunda está em
>primeiro plano, tudo bem. O perigo, frisa ele, começa quando as musas da
>cultura da bunda abrem a boca.
>  E as musas, o que dizem? de Gretchen, redescoberta na nova onda, a Carla
>Perez, a maior referência, a defesa está alicerçada em dois pontos: fazem um
>trabalho profissional e, o principal, a maioria do público curte e por isso
>elas alcançaram o sucesso. “Os homens gostam de bundas, não da minha
>somente. Gostam de todas... da Tiazinha, da Feiticeira, das Sheilas. É uma
>paixão nacional”, disse ela, em entrevista à revista “Vip”, nº 175. E
>revelou: “Mulher também gosta de bumbum de homem”.
>
> Malu Mulher
> 
>  O fato é que, se nos anos 80 um dos mais marcantes personagens da
>televisão brasileira era uma mulher que ia à luta, enfrentando preconceitos
>e desafiando padrões de comportamento secularmente cimentados pela idéia de
>mulher objeto – a Malu do antológico seriado global “Malu Mulher”,
>interpretada por Regina Duarte –, na segunda metade desta década as mulheres
>apontadas diariamente pela mídia como sinônimo de sucesso “profissional e
>financeiro” certamente deixam as feministas com vontade de voltar no tempo.
>  Nos últimos anos, mulheres como Carla Perez, Suzana “Tiazinha” Alves,
>Joana “Feiticeira” Prado, Scheila Carvalho e Sheila Mello, entre outras
>covers de menos sucesso, mas com talentos semelhantes, ultrapassaram em
>tempo meteórico a barreira do primeiro milhão de dólares embolsados. Em
>comum não têm qualquer atributo especial ou carreira construída à custa de
>investimentos em educação formal. Apenas têm determinados atributos físicos
>identificados como sinônimo de beleza e sedução na atual onda de
>popularização extrema da cultura brasileira.
>  Fernando de Barros e Silva, crítico de TV da “Folha de S. Paulo”, disse no
>seu artigo “A vitória do pré-feminismo de mercado” que qualquer pessoa
>relativamente esclarecida que eventualmente pare em frente a uma banca de
>jornal para espiar as opções que se lhe oferecem pode ter a sensação
>incômoda de estar diante de um cemitério do feminismo, com cada uma das
>revistas dedicadas à mulher sendo uma lápide dessa paisagem. “Nunca houve
>tantas publicações voltadas para o que Simone de Beauvoir chamou um dia – e
>lá se vão algumas décadas – de segundo sexo. A história parece estar lhe
>dando razão, ironicamente”, disse o crítico.
> 
>Imagem
> 
>  A sexóloga e terapeuta sexual Gilda Fucs teme que as etapas de vivência
>sejam queimadas precipitadamente. “Não se deve reprimir a sexualidade, mas é
>ruim para as crianças aprenderem cedo o erotismo da boquinha da garrafa e
>outras danças do gênero. Essa erotização precoce é perturbadora”, sublinha a
>sexóloga. Em sua opinião, estamos vivendo um momento de retrocesso na
>histórica luta contra a mulher objeto. “Você acha que homens e mulheres, no
>caso, mais as mulheres, vão às academias por saúde? Não, estão lá para ficar
>mais atraentes, para ser atração”, afirma.
>  Gilda Fucs teme o retorno do autoritarismo como pretexto para combater o
>que ela chama de cultura do superficial. “Quem for analisar a situação de
>exposição em mídia, da televisão, deve ter a mente aberta. É uma luta
>desigual, porque o poder econômico é forte e a sociedade é regida pelo
>dinheiro, onde o valor do ser humano é medido pelo que ele tem e pelo
>sucesso que faz”, critica. A sexóloga critica também as escolas. “O ensino
>não é feito de forma inteligente. É preciso sensibilizar os jovens com
>técnicas que lhes atraiam para o estudo”, sugere.
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>Ant-Br mailing list  -  Ant-Br@listhost.uchicago.edu
>https://listhost.uchicago.edu/mailman/listinfo/ant-br
>
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Cristiana Tramonte
Professora do Centro de Ciências da Educação, doutoranda em Ciências Humanas
Universidade Federal de Santa Catarina
e.mail: tramonte@ced.ufsc.br
fone/fax:(048)228.8895


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